O “Choco Louco”

Quem? Como? Porquê?

Famoso pela alcunha “Choco Louco”, provenho de uma família tradicional de chocos da Costa Atlântica de um magnífico País – Portugal.

Desde tempos remotos que nós, chocos, somos parceiros dos humanos, nossos vizinhos e amigos. Esta parceria manifesta-se sobretudo ao nível gastronómico, ou não fosse Portugal um digníssimo representante da tão apreciada dieta mediterrânica. Tão apreciada que, a 4 de dezembro de 2013, foi-lhe atribuído o epíteto de Património Cultural e Imaterial da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO).

Nesta família tradicional honra-nos guarnecer o prato de um dos nossos amigos. Dignifica-nos sobremaneira oferecer-lhes as melhores iguarias que a gastronomia sadina tem para oferecer — cresce-lhes água na boca só de pensarem na famosa receita de choco frito, típica de Setúbal. E esta é apenas a mais famosa! Choco estufado, choco ensopado em caldeirada ou feijoada de ovas guarnecida com choco são outras receitas deliciosas.

Na verdade, contribuir para a felicidade dos Portugueses e dos turistas que tanto nos apreciam é o motivo da nossa existência. Incha-nos o ego saber que satisfazemos o palato (e o estômago!) dos nossos apreciadores. E tantos que eles são!

Os pescadores são o nosso elo de ligação com os humanos. Estes homens exercem uma profissão heroica e arriscada. Contribuem assim para o bem-estar dos seus irmãos e para que nós, chocos, possamos dar continuidade à ancestral missão de que tanto nos orgulhamos.

Porquê “Choco Louco”?”

A explicação da minha alcunha é simples: sou robusto, saudável, fosforescente, ativo, curioso e gosto de interagir com as lulas, os polvos — ai, os polvos, os polvos —, e todos os outros animais do oceano! Inclusive, adoro os pescadores, que parecem animais anfíbios — ora estão em terra, ora no mar.

Mas, pensando bem, sou parecido com todos os outros chocos…então, porquê eu? Por que razão sou eu o “Choco Louco”?

Passo a explicar: logo em bebé, imaginava como seria interagir com os homens, em vida e no seu ambiente natural. Os humanos são animais curiosos, interessantes, criativos e versáteis. Portanto, a interação convosco, no vosso ambiente natural, tornou-se um sonho!

Certo dia, confessei à minha mãe esta ambição. Surpreendida, reagiu carinhosamente e mimou-me. Bastante! Deu-me bons e sensatos conselhos, mas, para meu desalento, nenhum parecia favorável à hipótese de estar no vosso convívio direto. Ou seja, fora da panela!

Afinal, como poderia um choco ter amigos humanos? A relação entre nós e vocês é puramente gastronómica. E todos sabemos quem acaba sempre por ser comido, não é? Por esta altura, a minha mãe fez o primeiro comentário premonitório — “o meu choquinho está louquinho.”

Certo, certo, é que a ideia e a paixão não esmoreceram. Pelo contrário, acentuaram-se! Mas não vou alongar-me no relato deste processo de ascensão ao vosso convívio.

“Como se materializou, então, esse objetivo?”, perguntará o amigo desse lado do ecrã. Contado parece fácil, mas tive de conjugar a inteligência e a sabedoria universais para que tal fosse possível.

No verão de 2018 fui à praia. Sim, nós, moluscos e outros animais marinhos, também vamos à praia. A paisagem é diferente da vossa, mas não deixa de ser apaixonante. Vi então uma linda rapariga sentada com os pés na água. Parecia meditar…ou, quem sabe, estivesse simplesmente a observar-me…?!

Aproximei-me, lancei-lhe algum charme fosforescente para me certificar de que me via e voilá — começámos a interagir! Sim, leram bem! Eu, jovem choco, abri a porta à comunicação com aquela bela humana.

Foi então que o “impossível” aconteceu: estabeleceu-se de imediato uma cumplicidade e um entendimento nunca visto.

De súbito, sem razão aparente, assustei-me. Nadei para junto da minha mãe e relatei-lhe aquela “experiência”! Ou seria apenas um sonho louco? A minha progenitora ouviu-me atentamente. Afirmou então que só podia ter sonhado e que essas divagações poderiam, inclusive, fazer-me mal. “O melhor será não voltares a aproximares-te da praia”, disse, enquanto me afagava, acrescentando “’coitadinho’ do meu ‘Choco Louco.’”

Mas eu não era “coitadinho” e sabia-o. Além disso, acreditava não ser um “choco louco.” Ainda assim, agradou-me a sensação de descoberta, ao explorar a hipótese, tão… “louca”, de fazer amizade com um humano.

Regressei à mesma praia, pois claro, quando recuperei a coragem e o fascínio por tentar estabelecer comunicação e, quiçá, uma relação com aquela linda rapariga. Sim, porque eu sou decidido. Há quem me chame teimoso, mas prefiro pensar que sou decidido!

Quando cheguei, não foi necessário fosforescer muito para que ela me reconhecesse de imediato. Parecia já estar à minha espera.

Iniciámos comunicação instantânea através do campo eletromagnético, julgo eu. Apresentei-me como o “Choco Louco”. Ela ofereceu-me um lindo sorriso, dizendo chamar-se Valeriya. Acabara de se estabelecer na cidade para trabalhar no seu novo projeto, o ANTICAFÉ – CLUBE SOCIAL.

Entusiasmei-me de tal forma com o seu projeto “louco” que me prontifiquei imediatamente a nele participar. Assim, teria uma oportunidade única de conhecer os humanos aos níveis social, cultural e intelectual, não só para meu enriquecimento próprio, mas também de todos os chocos (loucos ou não) dos cinco oceanos.

Eu e a Valeriya entendemo-nos na perfeição e assim fundámos, com outros parceiros, o ANTICAFÉ CHOCO LOUCO – CLUBE SOCIAL DE SETÚBAL!

Nota do Choco: foi a mãe biológica da Valeriya que me idealizou, portanto tenho uma família humana e outra de chocos. Mas, afinal, somos todos um só, correto?

Ass: Choco Louco
Oceano Atlântico, 28.11.2018
Nota: a data coincide com o aniversário da nossa mãe (minha e da Valeriya).

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